| A Medicina Veterinária Intensiva
Belo Horizonte, agosto de 2003; um grupo de médicos veterinários funda a BVECCS (Brazilian Veterinary Emergency and Critical Care Society) - Academia Brasileira de Medicina Intensiva Veterinária – uma ramificação da entidade norte-americana que deu origem à sigla (VECCS – Veterinary Emergency and Critical Care Society) e que também congrega o grupo de intensivistas veterinários europeus (EVECCS – European Veterinary Emergency and Critical Society); um marco: veterinários que se preocupam em cuidar de pacientes gravemente enfermos se organizam, dão forma, e pretendem fazer desse trabalho uma especialidade.
A vontade de ver a vida sempre presente, de não deixar a chama se apagar mesmo nas situações mais críticas; o querer driblar a morte a qualquer custo, este é nosso objetivo.
Mas várias são as dificuldades a serem vencidas: O que será e o que faz um veterinário intensivista ? É o plantonista ? É o veterinário de canil ? É o anestesista ?
E já escutei a resposta: aquele que vai cuidar dos que vão morrer mesmo.... aquele que está ali só para aliviar a dor e atrasar a morte...
Não é bem assim, mas quem sabe: aquele que tenta prever o trágico, que busca caminhos para vencer a morte, que faz de tudo para que a saúde no doente grave seja restabelecida, aquele que quer um animal socialmente viável, que sabe que não há limites para o cuidado intensivo, para o veterinário humanista, que sofre, que cuida e que se relaciona.
Exatamente, aquele que vai dedicar seu tempo aos mínimos detalhes, que não pode se esquecer que o paciente deve ser alimentado, que sua dor deve ser cessada, que deve receber carinho e que ele tem sentimentos mesmo no coma mais profundo.
Devemos lembrar que esta especialidade, no Brasil, foi iniciada por volta de 1980 na medicina humana, com muito custo para somente anos depois ser reconhecida, e hoje temos os médicos intensivistas, reconhecidos por sua eficiência nas UTI’s ao longo de todo o país.
Na veterinária o grupo norte-americano veio na frente, há cerca de dois anos os europeus, e agora os brasileiros. Não podemos ficar atrás, nossos pacientes são tão importantes quanto os outros !
Devemos buscar a formação desde a graduação, de médicos-veterinários intensivistas, devemos lutar para sermos reconhecidos pela sociedade, ainda mais agora que a Especialidade Medicina Intensiva já foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária e a BVECCS é a gestora oficial da especialidade, para que protocolos sejam sugeridos, para que a qualidade melhore, para que menos pacientes sofram e encontrem no óbito o seu único prognóstico, para que o veterinário seja melhor visto pela sociedade, para que a classe possa ter a oportunidade de conhecer um dos ramos mais fascinantes da medicina, o lidar com a tênue faixa entre a vida e a morte.
O primeiro passo é o nosso grupo, nossa associação, já nos filiamos aos mais experientes, estamos trabalhando com os médicos para aprender e ensinar, a troca constante, a tecnologia disponibilizada, o esforço conjunto para salvar homens e animais na terapia intensiva.
E para aqueles que ainda duvidam que pode ser viável pensem nestas questões:
Será que realmente estamos prontos para atender e manter um caso crítico ?
- Meus funcionários são constantemente treinados ?
- Tenho estrutura física e equipamentos mínimos necessários ?
- Há uma preocupação com o paciente emergencial ?
- Como é minha unidade de cuidados hospitalares ?
Devemos responder à todas estas perguntas pois.....
- Os clientes estão cada vez mais exigentes
- A medicina evoluiu rapidamente e pacientes mais críticos dão entrada nos serviços de urgência veterinários
- Cada vez mais há recursos financeiros para os cuidados intensivos
- Temos que estar minimamente preparados e mais....
- O número de animais vem crescendo
- A síndrome do TRAUMA e SEPSE já matam mais que qualquer outra doença
no mundo !
- Devemos nos preparar para encarar este desafio !
A contínua exigência por melhores condições tecnológicas e logísticas para o atendimento emergencial, por parte dos proprietários de pequenos animais, se firmam como pilares de nosso trabalho.
Numa obra antológica, SHOCK-TRAUMA de Joe Franklin e Alan Doelp, tive a honra de ler uma das passagens mais marcantes de minha vida, e de lá pra cá, penso todos os dias que o Dr. R Adams Cowley também teve o seu começo, lutando muito desde a década de 70, para que a hora de ouro fosse respeitada, para o choque fosse entendido, para que menos pessoas morressem, um dia no University of Maryland Hospital, nos Estados Unidos....
“ Cowley, café na mão, a máscara ainda no rosto, vai pensando alto enquanto sai pelo corredor: o TEMPO...., sussura enquanto tira a máscara da frente do rosto para chegar ao copo de café: São as pequenas coisas que matam. Elas não significam nada naquele instante, mas dias depois você vê o seu paciente começando a morrer. É tarde demais. Você pode gastar todo dinheiro, treinar médicos e enfermeiros, desenvolver novas drogas... mas se você esperar demais nenhuma dessas coisas vai ajudar. O TEMPO é a única coisa que você não pode comprar. ”
Esperamos que muito em breve a Medicina Intensiva seja reconhecida e possa colaborar com a nossa entidade maior, o Conselho Federal de Medicina Veterinária, a fim de padronizar ações ligadas à esta especialidade, para garantir a qualidade e a eficiência e amplificar nosso orgulho em ser médico-veterinário.
Rodrigo Cardoso Rabelo, MV. MSc
Presidente BVECCS . |